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Vaquinha, crowdfunding e financiamento coletivo. Qual a diferença?

Parece a mesma coisa, não é verdade? Segundo o próprio blog do Kickante, uma das maiores plataformas de crowdfunding do Brasil, os três termos têm o mesmo significado e representam a mesma ação de arrecadar fundos para transformar um projeto que estava apenas no papel em realidade. Entretanto, eu não tenho a mesma opinião, e, visto o crescimento do crowdfunding no Brasil e os últimos acontecimentos com a hamburgueria da Bel Pesce, acredito que seja válido trazer essa discussão.

Tudo gira em torno da arrecadação de recursos

Partindo do começo, vale dizer que tudo é financiamento coletivo. Como o próprio nome já diz, um grupo de pessoas contribuem para projetos que lhes agradem. Assim, o idealizador do projeto não precisa arcar com todos os custos ou buscar investimento privado, facilitando a conclusão do projeto ou causa social. Podemos dizer, então, que o financiamento coletivo é um guarda chuva que abriga os diferentes formatos de arredações.

Vaquinha online não é a mesma coisa de crowdfunding

Vaquinha nada mais é que uma doação. Não existem recompensas, nem o compromisso de mostrar o resultado após a conclusão da campanha. No Brasil, pelo fato de ser uma doação e qualquer valor já ajudar o proponente da campanha, as plataformas permitem que qualquer valor doado seja repassado, sem meta mínima (não são campanhas “Tudo ou Nada”). A grande maioria das campanhas são de cunho social, para ajudar pessoas que não possuem recursos para um tratamento médico, uma viagem, casamento, etc., e as doações costumam ficar dentro da rede de relacionamento de quem propõe a vaquinha. Não é feito um movimento com a mídia e nem é preparada uma grande ação de marketing. No final, as plataformas para financiamento coletivo dessa modalidade facilitam a divulgação da campanha para familiares, amigos e amigos dos amigos, diminuindo a necessidade de pedir, “um por um”, ajuda para conseguir o recurso necessário.

Uma campanha de Crowdfunding é diferente de uma Vaquinha online

Crowdfunding, como impulsionado pelas grandes campanhas do Kickstarter nos Estados Unidos, é diferente. Aqui nós não estamos mais falando de doação, mas sim de uma compra antecipada, ou então de uma validação de mercado do produto ofertado. Quem idealiza uma campanha não deve pensar apenas no recurso necessário para a criação do projeto. Na verdade, muitos projetos pedem menos dinheiro do que de fato seria necessário para a plenitude da ideia. O maior valor desse modelo de financiamento coletivo é aproximar o empreendedor do potencial público alvo.

Veja também: O que é a economia do compartilhamento?

Vamos pensar da seguinte forma: você tem uma grande ideia de um novo modelo de bicicleta elétrica com um grande diferencial comparada às demais bicicletas já existentes no mercado. Você possui dois caminhos:

  1. Montar uma equipe, desenvolver todo o projeto, fabricar as primeiras unidades, e buscar lojas para vender a sua bicicleta elétrica. Um mínimo de bom senso já nos alerta para o tempo e recurso necessário para realizar tais tarefas. E isso não é o pior… Será que as pessoas realmente enxergam valor na sua inovação? Será que todo o tempo e recurso empreendidos terão retorno?
  2. A segunda opção é criar uma campanha de crowdfunding, explicando todo o projeto, a sua motivação (contar a sua história!), inovações pretendidas, forma de distribuição do produto, valores e metas. Para criar uma campanha decente, é necessário o tempo de preparação prévio de 3 meses, pelo menos, com os seguintes elementos:
    • Vídeo
    • Descrição detalhada
    • Recompensas
    • Valores solicitados e como serão utilizados
    • Cronograma
    • Plano de marketing e comunicação

Podemos ver essa campanha como um mínimo produto viável para lançarmos a nossa ideia no mercado e angariar feedbacks sobre o produto/serviço proposto.

Vejam, não é barato lançar uma campanha bem feita, mas sem dúvida é mais barato do que produzir às escuras, sem saber a opinião do cliente.

Crowdfunding is the new Vaquinha
Créditos: Social Good Brasil

Como mencionei anteriormente, esse tipo de campanha pode servir como uma pré-venda de um produto, ou seja, o negócio já é iniciado sem ter finalizado a fase de produção. Isso é ótimo para o empreendedor, que poderá avaliar a demanda do produto e fazer as atualizações necessárias no seu plano de negócios. Vale lembrar que as campanhas de crowdfunding são “Tudo ou Nada”, o que significa que se o empreendedor não atingir a meta, o dinheiro arrecadado será devolvido para quem apoiou. Isso é mais uma garantia para quem comprou a ideia de que ela sairá do papel. É claro que nem sempre isso acontece, mas tem funcionado bem até hoje.

Veja também: Como surgiu a economia do compartilhamento?

Falando um pouco das recompensas das campanhas do crowdfunding, muitas delas, principalmente para valores menores, são coisas bastante simples e que não correspondem ao valor solicitado. Copos, chaveiros, adesivos, são comuns de serem ofertados para os menores valores solicitados nas campanhas. A minha visão é que quem compra esse tipo de recompensa gostaria de comprar o produto final, mas não possui o valor necessário naquele momento. Ou seja, ele é um “early adopter” da ideia, acredita na proposta de valor ofertada e consegue contribuir com valores menores para ver a ideia sair do papel e, no futuro, poder comprá-la.

Por mais que semanticamente todos os termos sejam muito similares, não podemos negar as raízes de cada tipo de campanha de financiamento coletivo. A ideia da vaquinha é doar dinheiro. Por outro lado, a ideia do crowdfunding é validar um negócio. Arrecadação de fundos em uma campanha de crowdfunding é um objetivo secundário, sem dúvida, mas não pode ser visto como o objetivo principal. Família, amigos e colegas talvez “doem” dinheiro para uma campanha de crowdfunding, mas ela só será bem sucedida se a ideia se sustentar no mercado e isso somente os consumidores controlam.

 

Por fim, não é porque a pessoa tem dinheiro para tirar a sua ideia do papel que ela deverá fazer isso sem responsabilidade. É bem mais interessante ter as validações antes de sair gastando dinheiro. Vejo que perdemos uma boa oportunidade de divulgar o crowdfunding no Brasil com o insucesso dacampanha da Bel Pesce. Agora, qualquer pessoa vai pensar duas vezes antes de “dar a cara a tapa” e mostrar o seu projeto para o Brasil. Provavelmente vão pensar: “Será que vão criticar a minha ideia? Será que ela é muito simples? Será que não é inovadora suficiente?” Uma hamburgueria também não me atrai nem um pouco e eu jamais contribuiria para essa campanha, mas acredito que todos têm direito de colocar as suas ideias a prova, sem o risco de receber um dilúvio de críticas.

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